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Precisamos Falar de Filosofia e Autoritarismo

Têm sido cada vez mais comum, na breve existência do atual governo, manifestações públicas de seus mais altos dirigentes completamente desconectadas da realidade, que não trazem em si a marca distintiva de um governo de estadistas; pelo contrário, tendo em vista os objetivos que acompanham os discursos, elas revelam e isto me soa como algo preocupante, formas de governar – que eu poderia aqui nomeá-las de formas de desgoverno – dotadas de um alto déficit civilizatório. Rotineiramente transmitidos via Twitter, o que já me parece uma prática de governo surreal, os pronunciamentos que são trazidos a público, em especial, os do mais alto mandatário, e que sabemos previamente monitorados pelo seu filho, um obscuro e controvertido vereador pelo estado do Rio do Janeiro são na minha opinião totalmente incompatíveis com as posturas que se exigem para pessoas que exercem destacados cargos públicos no governo. Ou seja, pessoas que sejam capazes de separar o certo do errado e de produzirem proposições ricas em pedagogia política, que se prestem a ser objeto de reflexões por parte dos mais amplos setores de nossa sociedade. No entanto, não é esta a realidade política que estamos vivendo no nosso país. Pelo contrário, estamos atravessando tempos duros, difíceis e com sérios riscos para um projeto de nação, no qual se favoreça principalmente as novas e futuras gerações, sendo ainda visíveis os riscos para a nossa frágil democracia, ante o avanço do seu mais temível e histórico inimigo: o autoritarismo. E este já começa a dar contornos muito claros de suas reais intenções ao ocupar o vácuo político que começa a se alargar perigosamente em nosso país. Necessário dizer: tendo sendo como alvo preferencial a Educação. No entanto, a lógica que move essa cruzada do poder autoritário e o seu séquito de patéticos seguidores tem sempre por objetivo apontar a sua artilharia para o modelo de Educação pública, autônoma, crítica, emancipatória, libertária e voltada para a reflexão. E a prova do que aqui se afirma, foi o mais recente pronunciamento do presidente, com os requintes próprios de uma retórica mecanicista e argumentos inegavelmente falaciosos, dando conta de que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, estuda reduzir as verbas do governo para disciplinas como Filosofia e Sociologia com o intuito de deslocá-las para áreas que, segundo ele, dão retorno imediato para a sociedade, como veterinária, medicina e engenharia. São gestos temerários e irrefletidos. A negação do pensamento crítico e humanístico em favor do conhecimento meramente voltado para os interesses do mercado e que falseia uma realidade, tendo em vista a nossa sociedade profundamente injusta, desigual e sem um mercado que ofereça perspectivas de emprego. Em suma, o cenário ideal para se travar uma guerra do poder autoritário e ditatorial contra o saber gerado pelas Ciências Humanas, em especial a filosofia: o saber iluminado que estimula o pensar crítico, autônomo e emancipatório e que deve reger uma sociedade que almeja atingir o patamar de uma sociedade desenvolvida.

E por que os cursos de Filosofia e Sociologia incomodam tanto o poder tirano e autoritário? Segundo uma das mais destacadas pensadoras da atualidade, a filósofa americana Judith Butler, “o ataque ao conhecimento é historicamente uma tática do autoritarismo”, pois, segundo ela, “se as pessoas aprenderem a questionar o governo, ele não poderá comandar o povo sem ser desafiado”. De forma breve, quero aqui lembrar de períodos emblemáticos que a memória generosa de nossa história contemporânea nos oferece: no tristemente célebre ano de 1933, data da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, a queima em praças públicas de várias cidades alemãs de obras de intelectuais, principalmente os escritores, considerados inconvenientes ao regime nazista. Ato necessário, segundo o poeta nazista Hanns Johst, para a “purificação radical da literatura alemã de elementos estranhos que possam alienar a cultura alemã”. E para ficar num exemplo brasileiro, a ditadura militar, de 1964 a 1985, que impôs ao país fortes censuras e que suprimiu de nossas escolas o ensino da Filosofia, como estratégia de substituição de uma disciplina de conteúdo crítico e reflexivo por outras de clara doutrinação ideológica, no caso as famigeradas OSPB e Educação Moral e Cívica, de triste memória para a Educação brasileira.

Como se vê o avanço do extremismo político de direita, de um falso nacionalismo e da intolerância trará consequências diretas para o modelo de educação que estará vigente pelas próximas décadas. Resistir à onda obscurantista e fundamentalista idealizada pelo guru ideológico deste governo, um astrólogo e que se autodenomina filósofo (vejam a ironia!), Olavo de Carvalho, é preciso. E a propósito, quero evocar as palavras do governador de nosso estado, Flávio Dino: “no âmbito estadual sempre manterei o respeito aos cursos de Filosofia e Sociologia. Sem ideia e pensamento crítico, nenhuma sociedade se desenvolve de verdade. E não haverá o bem viver que tanto buscamos como direito de todos”. E as de Paulo Freire, patrono da Educação Brasileira, educador brasileiro reverenciado no mundo inteiro e, no entanto, duramente atacado pelo governo Bolsonaro: “seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de uma maneira crítica”. E para dar voz a uma mulher, escritora e poeta portuguesa, cujo centenário do nascimento se comemora este ano, as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen: “a cultura é cara. A incultura acaba por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssima”.

 

Raimundo Silva, advogado aposentado, estudou Filosofia na Universidade Federal Fluminense e atualmente é mestrando em Filosofia Política pela Universidade do Minho, em Portugal.



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