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A Estupidez como um mal constituinte da violência e do vazio político

Por: RAIMUNDO SILVA*

06/08/2019

Tenho observado com incômoda preocupação a escalada da violência e sua banalização na atual política brasileira, que se manifesta nas mais diversas declarações de proeminentes quadros do atual governo federal, a começar pelo primeiro mandatário, e já se propagando perigosamente para os governos estaduais que lhe seguem a orientação ideológica.

Identificando como alvos aqueles que lhes são opositores, isto é, que não comungam com suas ideias, assim como algumas categorias humanas pelas quais eles nutrem uma inaudita hostilidade, e aqui me permito citar os nordestinos, as insanas declarações vão se sucedendo, numa forma tão banal, tão mesquinha, tão fútil e tão insensível que me deixam num estado de estupefação terrivelmente apavorante. E vejam que já nem estou me referindo ao desprezo, por meio de adjetivos pejorativos (“paraíbas), a um segmento dos mais importantes para o país, no que diz respeito ao seu desenvolvimento econômico e social e a construção da sua identidade cultural, como é o caso de nossa brava gente nordestina, a quem toda a sociedade brasileira deveria devotar eterna gratidão por tudo que ela, ao longo de nossa história, fez pelo país.

Não, ainda que seja muito grave esses discursos eivados de preconceitos contra um segmento social, o que quero aqui é trazer outros exemplos de discurso, os que se traduzem na violência banal, ou seja, aquela que traz em si o pavoroso gérmen que pode nos conduzir à barbárie. Um primeiro exemplo: quando vi a declaração de voto do então deputado federal, o senhor Bolsonaro, por ocasião do impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff, legitimamente eleita pelo voto popular e sem que houvesse quaisquer atos ilícitos que justificassem àquele ato extremo, elogiando um dos mais notórios e sinistros torturadores da ditadura militar, o general Brilhante Ustra, e ainda afirmando que ele era o pesadelo da Dilma pelas lembranças das torturas. Profundamente cruel. E agora, o mais recente: como se estivesse tomado por um certo arrebatamento, por estar infligindo uma dor a alguém, as suas palavras a respeito do pai do atual presidente da OAB – Ordem dos Advogados do Brasil, morto e desaparecido por conta do indizível horror que foi a ditadura militar brasileira, de triste memória para nós brasileiros, mas lamentavelmente cultuada por ele, como se pode ver por outras declarações nada politicamente pedagógicas, por resvalar para a banalidade da política, ou melhor, para o seu vácuo, o espaço favorito dos aproveitadores que se utilizam da antipolítica para perpetuar a ignorância política e miséria material do povo, da qual extraem o sustento de suas vidas nababescas.

É inegável como os paralelos se cruzam ao longo da história, dando-nos a falsa impressão de que ela se repete. Não, ela não se repete. No entanto, quando refletimos sobre os tempos que passaram e os fatos históricos a eles correspondentes e de declarações dos “líderes”, na condição de artífices desses tempos, é que nos damos conta do quanto podemos aprender com ela. E aqui, de forma a legitimar os paralelos que menciono, trago para este texto uma declaração de uma triste personagem de nossa história contemporânea, o líder do partido nazista alemão, Adolf Hitler. Dizia ele: “sinto-me como o Robert Koch da política. Ele encontrou o bacilo da tuberculose e, por meio disso, abriu ao estudo da medicina novos caminhos. Eu descobri os judeus como os bacilos e o fermento de toda a decomposição social. São seu fermento. E eu provei uma coisa: que um Estado pode viver sem judeus, que a economia, a cultura, a arte, etc. podem existir sem os judeus, e ainda muito melhor. Eis o pior revés que impus aos judeus”. A propósito, Robert Koch (1843-1910) foi um cientista alemão que se notabilizou em pesquisas sobre a transmissão de doenças e um dos pioneiros em microbiologia. E aqui uma reflexão, a respeito dessa declaração: o ódio que o ditador nazista tinha pelos judeus e outras minorias, como os ciganos, testemunhas de Jeová, crianças com deficiências, física e psicológica, homossexuais e comunistas, a mim me parece, salvo outro juízo de valor, o mesmo que todos altos dirigentes do atual governo sentem pelos petistas, homossexuais, pobres, nordestinos e extensivo a todos esquerdistas do planeta.

O Brasil vive um pesadelo. Um período muito recente de nossa história começa a nos assombrar, como se pode ver pela semelhança das declarações acima. Os tons da estupidez nas declarações de destacados membros do atual governo, a começar pelo primeiro mandatário, podem nos auxiliar na tentativa de compreender o porquê da banalização da política e da violência nos tempos atuais brasileiros. Tudo obedece a uma lógica. E ela aponta para aquilo que conhecemos por barbárie.

Necessário, então, que nos dotemos do generoso sentimento de humanidade, do respeito pelo “outro”, o diferente e de amor pelo mundo. Pois, somente por meio de um diálogo profundamente altruísta com as nossas consciências voltadas para o reconhecimento daqueles “outros” e diferentes é que podemos lançar um olhar de aprendizado para as singularidades da história, guardadas em nossas memórias. E por meio delas criarmos as necessárias resistências no sentido de evitarmos a ocorrência de novas barbáries.

*Raimundo Silva, advogado aposentado, estudou Filosofia na Universidade Federal Fluminense e atualmente é mestrando em Filosofia Política pela Universidade do Minho, em Portugal.

 

 

 

 

 



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