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A Amazônia em Debate, por Raimundo Silva

Por: Raimundo Silva*

28/08/2019

Os inconcebíveis níveis de desmatamento por conta das queimadas criminosas que sacodem a nossa Floresta Amazônica, operadas por mãos humanas dos que só veem o lucro como lógica da vida, constitui-se no mais novo capítulo da tragédia política em curso no nosso país. As notícias dos atos e das análises desatinadas de proeminentes dirigentes do atual governo, e que ganham um destaque na dimensão do patético, no cenário internacional inclusive, quando partem do presidente, sucedem-se numa velocidade tão assombrosa que parece algo gerado para imobilizar a população. São homens que desconhecem o que seja ação política, objetivos estratégicos de governo e a que se presta um governo de estadistas. Tudo se assemelha a um pesadelo. Mas é real e apavora.

Mas o que esperar de um governo que utiliza como seu principal meio de comunicação, o “Twitter”, para veicular as suas pulsões mais primitivas, adotadas como um estilo de comportamento político, cujas intenções já não tanto ocultas são a de galvanizar o apoio “político” das massas menos esclarecidas para a continuidade e sustentação do seu desastroso governo a passos largos para se transformar numa tirania?

O que esperar de um governo que, ao deparar-se com o gigantesco problema internacional em que se transformou a nossa Amazônia parece desconhecer completamente as singularidades da complexa geopolítica mundial, ao acusar o presidente de uma das potências mundiais, a França, de tratar o Brasil como uma “colônia” quando este se oferece para articular uma ajuda financeira no âmbito do G7 (grupo dos sete países mais poderosos economicamente do planeta), para o combate às chamas que ardem na nossa floresta por conta das criminosas queimadas, já caracterizadas por ambientalistas como um genocídio, e portanto, um crime contra a humanidade?

Aliás, como entender a exigência do presidente brasileiro de um pedido de desculpas do seu homólogo francês, como condição para voltar a negociar com o G7 essa questão tão fundamental para o planeta, a preservação da Amazônia, quando ele é quem deve as desculpas ao presidente da França em razão dos comentários de baixo nível, desrespeitosos e totalmente inadequados a um chefe de Estado, em relação à idade da primeira-dama francesa?

Questões como essas precisam ser objeto de reflexões urgentes por parte dos setores mais organizados da sociedade brasileira, antes que seja muito tarde. Afinal, os tons da estupidez só aumentam, como se pode ver pela matéria do qualificado jornal português, Público, segundo a qual o presidente Bolsonaro “não dá sinais de vir abdicar de transformar a Amazônia na ‘alma econômica’ do Brasil. Discursos, como esse, guardam em si uma enorme superficialidade, no entanto, são temerários, de fácil assimilação e convencem um contingente expressivo de pessoas exatamente porque ele é superficial, prescindindo da necessária reflexão capaz de trazer para este debate a lucidez, o bom senso e o respeito à paz que deve reger as relações entre as nações, valores estes que deveriam ter no presidente do Brasil o seu exemplo mais eloquente.

Reflexão que o povo brasileiro não pode abdicar. Que ele não se deixe dominar pela falta de consciência em relação a uma questão tão crucial para a humanidade. As terríveis consequências que se afiguram em decorrência da destruição de nossa maior floresta, que parece ganhar o estatuto de política do atual governo e que ainda usa o princípio falacioso da soberania, têm que calar fundo nas pessoas. E as consequências, na escalada da destruição em curso, como já falado, aponta para um holocausto. O amor ao mundo tem que dá o caráter emergencial deste debate, já que trabalhar pela preservação de nossas matas, em especial, as da Floresta Amazônica é uma prova inconteste de que amamos o mundo.

Mas para isso é preciso pensar. O pensamento é o instrumento mais poderoso de que dispomos para produzir os nossos julgamentos e as nossas interpretações a respeito dos fenômenos sociais, políticos e culturais do mundo em que vivemos. Segundo a filósofa Hannah Arendt “homens que não pensam são como sonâmbulos”. E abdicar de pensar, diz ela, também é crime. No momento em que renunciamos à nossa capacidade de reflexão ficamos sem o elemento mais potente que temos para postular um mundo mais justo, mais fraterno e libertário. E com isso, abrindo um vácuo onde germinam os governos déspotas, tirânicos e vocacionados para o autoritarismo, cuja maior estratégia de sobrevivência é sempre eleger um inimigo comum para a nação. A se acreditar nas teses simplistas e conspiratórias do atual presidente brasileiro, é bem provável que a França, a Alemanha ou a Noruega sejam os destruidores dos principais biomas brasileiros, a mata atlântica, o cerrado, os pampas e agora a floresta amazônica.

E concluo afirmando, que essa máquina de manipulação de informações e de propagação de mentiras é o que revela o espantoso quadro de degradação da política que estamos vivendo no país.

 

*Raimundo Silva, advogado aposentado, estudou Filosofia na Universidade Federal Fluminense e atualmente é mestrando em Filosofia Política pela Universidade do Minho, em Portugal.

 

 

 

 

 



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